Apesar de ter começado a escutar as Palavras da Salvação ainda menino pequeno, só algum tempo depois tive contato com os insondáveis mistérios da fé cega e da devoção.

Os ponteiros do relógio marcavam exatamente duas e pouco de uma madruga de sábado do final da década de 1980, quando o locutor do Parque de Exposição largou a seguinte e celestial notícia: “Não saiam. Daqui a pouco, vocês assistirão a um show do grande astro da MPB 4”.

Obediente, não arredei o pé do referido e insalubre local até que o “grande astro da MPB 4” chegasse. E ele demorava. E o locutor prosseguia o chamamento, como se estivesse (e estava realmente) anunciando a vinda do Messias. “Não saiam. Daqui a pouco, vocês assistirão a um show do grande astro da MPB 4”.

E nem bem amanhecia, a cidade em romaria foi beijar as mãos do astro que acabava de chegar. Um rebuliço dos seiscentos. Choro, ranger de dentes e olhos esbugalhados. Porém, o “Astro da MPB 4”, ao contrário do esperado, não deu qualquer chilique – e subiu ao palco tranqüilo e infalível como um legítimo João Gilberto.

E, a partir de então, comecei a entender a agonia dos devotos e dos que amam desesperadamente…

Maestro, corta para 25 de agosto de 2008, outra data importante na história.

Exatamente 47 anos depois de Jânio Quadros ter largado a rapadura, eu decidi que não renunciaria à batida de viola daquele que o locutor do Parque de Exposição chamava de “grande Astro da MPB 4”.

E resolvi encarar a fila monstruosa no Shopping Iguatemi - não sem antes ligar, na tal data fatídica, para minha amiga Sora Maia, especialista em filas.

-E aí, que horas você acha recomendável chegar no local?

- Olha, no show do Fanho, fui às 10h manhã. Duas horas antes da abertura da bilheteria, acho que tá bom.      

Fui estúpido e dei ouvido à maldade alheia, sem perceber que santos tão distintos não podem ser colocados no mesmo altar e patamar. Resultado: enfrentei um confusão dos pecados  e ainda fiquei sem o ingresso para o show de João no glorioso Teatro Castro Alves.

Achando pouco meu sofrimento, um maluco que ia ao SAC tirar a identidade, largou a seguinte: “Esta chibança aí é só enxame. Não tem nada de cultural. Cultura é aqui, ó”, disse, apontando para a foto de Raul Seixas que trazia na camisa.

Pois muito bem. Seguindo os ensinamentos do poeta Beto Bahia, “feijoada que não posso comer, eu meto o dedo para azedar”.

Assim, termino esta prosa ruim cantando junto com o maluco do SAC:

No Teatro Castro Alves, velho

conceito de moral

Bosta Nova pra universitário,

gente fina, intelectual

Oxalá, oxum dendê oxossi de não sei

 

o quê (de não sei o quê)”.

 

P.S. Antes de encerrar esta transmissão, preciso desfazer um boato: é mentira esta história de que Olavinho Setúbal, do Itaú, que patrocinava o show, morreu só por causa de uma praga que joguei nele. Nero ar.